Rapaz delicado no trânsito
O rapaz sensível vem dirigindo o seu carro lentamente, quando recebe uma trombada por trás. Vira o pescoço e vê uma brasília 1973 engatada na traseira de seu carro.
Desce nervoso:
- Olha aqui! Veja o que você fez! Não sabe dirigir? Machucou a traseira de meu carro! Vai ter de pagar! Vai ter de pagar!
Desce um negro da brasília e tenta falar alguma coisa, mas o rapaz sensível continua a sua verborréia, cobrando um imediato conserto de seu possante. O motorista da brasília, vendo que não iria conseguir expor seu pensamento, berrou ameaçadoramente:
- PÁRA DE BERRAR, OU EU TE DOU UM PAU AGORA!
O rapaz pára bruscamente:
- Um… pau? Você disse um pau?
- FOI!
E o rapaz conciliadoramente:
- Olha, vai ter de ser um pau muito grande! O prejuízo foi enorme, viu?
Manuel e Joaquim no combate à dengue
Manuel e Joaquim decidiram acabar com a ameaça da dengue na cidade. Compraram metralhadoras e escopetas. Saíram pelos terrenos baldios em busca dos perigosos mosquitos.
- Manuel, toma cuidado! Os bichos são traiçoeiros! Uns verdadeiros assassinos!
Entraram em um terreno e se depararam com um camburão cheio de água parada. Um tiro e a água começou a vazar. De repente, um mosquito pousou no peito de Manuel:
- Joaquim! – sussurrou Manuel. – Olha!
Joaquim, ao ver aquilo, fez um olhar de pavor. Virou a escopeta e disparou no peito de Manuel.
Manuel quicou no chão com o tiro.
- Maldito mosquito! Matei-o, mas ele matou o Manuel antes!
Outro crime passional!
Joaquim entra na padaria e grita para Manuel:
- Manuel, a Maria…
- O que foi, Joaquim?
- A Maria tá te traindo!
- Como é?
- A Maria tá te traindo…
- Com quem? Diga o nome! Agora!
- Posso não, Manuel… eu não sou fofoqueiro!
- Dê-me uma pista ao menos!
- Uma pista? Lá vai: é com o teu melhor amigo!
- COM O MEU MELHOR AMIGO? Ah, safada! Vagabunda! – e, gritando todos os tipos de impropérios, Manuel abriu uma gaveta e puxou um três-oitão forrado de balas. Joaquim grita:
- Não faça essa loucura, Manuel! Não vá se sujar por tão pouco!
- O chifre não está em tua cabeça, Joaquim! Está na minha!
E saiu correndo porta afora. Cruzou o bairro feito um raio. Entrou em casa e berrou para Maria:
- Vou matar o teu amante, estupor!
Foi ao quintal e meteu três tiros no Rex, um pobre e inocente cão pastor alemão…
A virgindade de Ariana
Ariana não era mais virgem e estava desesperada. Farnésio, seu noivo há sete anos, nunca tinha relado a mão naquele corpo moreno e a fama de impoluta da moça corria pela cidade. O casamento estava próximo. Ariana, cada vez mais ensimesmada, agoniada.
- O que foi, minha filha? Que ares tristes são esses? Não vais casar com o amor de tua vida? – perguntou dona Maurícia, mãe de Ariana.
- Mãe, eu não sei o que vou fazer! Eu não sou mais virgem…
- Como isso se sucedeu, minha filha? – dona Maurícia não escondeu o espanto. – E agora? Farnésio crê que você é virgem…
- Eu não sei, mãe! Não sei…
- Quem tirou tua pureza?
- Foi o finado Valterclei…
- Se o safado não tivesse morto, eu arrancaria os olhos dele! Mas eu sei o que fazer. Pode se casar e deixa a questão da tua virgindade comigo!
- Como assim, mamãe?
- Farnésio é um ingênuo e, com certeza, é virgem também. Não sabe exatamente o que fazer. Você finge inocência e pede para ser no escuro. É bem provável que o Farnésio vá direto ao ponto. Quando ele encostar o negócio e entrar, você geme assim: ai, ai, aaaaaai…
- Como, mãe?
- Ai, ai, aaaaaai… E deixa o resto comigo!
Veio o dia do casamento. Festa, bebidas e tome dona Maurícia embebedando o coitado do Farnésio! Na hora da subida para o quarto, Ariana falou para mãe:
- É agora, mãe!
A velha pegou uma garrafa de champagne, correu para o quarto e se escondeu no guarda-roupa. Em poucos minutos, o casal entrou. E as saliências começaram. Ariana, bancando a pudibunda, falou:
- Ai, Farnésio! Apaga a luz! Eu estou com medinho…
- Claro que sim, minha pureza! – E o quarto ficou às escuras.
Nesse momento, dona Maurícia abriu a porta do guarda-roupa e começou a agitar a garrafa de champagne, esperando o “ai, ai, aaaaaai…”, que veio.
A velha estourou a champagne: PÔP!
E Farnésio parou o vai-e-vem na hora!
- Que barulho foi esse?
- Você não sabe, Farnésio? – Perguntou Ariana, resfolegante. – É o meu hímen pulando fora!
E o Farnésio:
- Teu hímen pulou para fora?
- Pulou.
- Hímen safado esse teu, hein?
- Por que, Farnésio?
- É que ele acabou de entrar na minha bunda…
Um crime!
Manuel Joaquim há tempos desconfiava que Maria o traía. Toda a vez que ele ia para o trabalho, na padaria, desconfiava que Maria recebia alguém para colóquios carnais. Aquilo lhe afligia a ponto de ele ter comprado um revólver. Esperava o dia em que sua suspeita fosse confirmada.
Como não podia largar a padaria, Manuel Joaquim chamou Fidélis Figueira, o vagabundo do bairro, deu a ele uma nota de cem e disse:
- Quando eu vier a padaria, tu ficas lá perto de minha casa, de vigia. Se entrar algum homem lá, me avisa! – E deu a Fidélis um velho celular, estilo tijolão.
Tempos depois, Fidélis vigiando, um negro bateu à porta da casa de Manuel Joaquim. Maria abriu e abraçou o negro com paixão. Fidélis imediatamente ligou para o seu chefe:
- Seu Manuel, o senhor está certo! Dona Maria está lhe traindo! E com um negão! Quem é? Sei não, seu Manuel… Conheço não!
Manuel Joaquim Vasconcelos pegou sua arma, encheu o tambor de balas e seguiu rumo a sua casa. Em seus olhos, o vermelho do ódio lusitano!
- Vou matar esse negão! Depois mato Maria! Depois me mato!
Nesse exato momento, um pastor afro-descendente sai de sua igreja, depois de duas horas de intensa oração. Está com o semblante luminoso de felicidade. Bíblia de baixo do braço, descia a rua quando topou com o Manuel Joaquim. Este o olhou com firmeza: seria o tal que Fidélis viu?
- O senhor está muito sorridente, muito feliz. Vens de onde? – Pergunta o luso furioso.
E o pastor afro-descendente ergueu os braços para o céu e, quase cantando, disse:
- Eu venho da casa do Senhor!
- Ah safado!!! – E Manuel Joaquim meteu três tiros no pobre pastor afro-descendente.
A necessidade é a mãe da invenção
As grandes invenções surgem a partir de uma grande necessidade. Muitas vezes, uma invenção inspira a outra. A ameaça do adultério motivou a criação do cinto de castidade. O cinto de castidade motivou a invenção do abridor de latas.
No tempo das Cruzadas
O cavaleiro Sir Dawein foi chamado para lutar nas Cruzadas. Sua bela esposa, Lady Davina, fica chorando pelos cantos, já saudosa de seu amado esposo.
- Devo lutar para defender a fé, Davina! Matarei os infiéis e voltarei para ti! Irás me esperar? – pergunta o aflito Dawein.
- Sim, meu amado! Estarei em oração aguardando o teu retorno.
- Mas, Davina! Eu tenho ciúmes… A tua beleza…
- Se quiseres, amado Dawein, posso usar um cinto de castidade. Com isso, poderás matar pagãos com mais tranquilidade! – fala, resoluta, a bela Davina.
- Sim, amada Davina! Mandarei o artesão fabricar o cinto…
Na véspera da partida, Dawein e Davina têm uma noite espetacular. Após o amor, Dawein, com a consciência pesada, diz a Davina:
- Posso morrer no campo de batalha, amada Davina! E não será justo que tu, no auge de tua juventude e beleza, guarde eterna viuvez! Colocar-te-ei o cinto, mas darei a chave dele a meu leal servo Humbert. Se chegar a teus ouvidos a notícia de minha morte, ele te entregará a chave e poderás viver a tua vida!
Após mais uma prova de amor, os dois se agarram retumbantemente.
Manhã fria, sol oculto, Dawein monta em seu cavalo e chama Humbert, seu servo mais fiel:
- Humbert, cuida dessa chave! Se eu morrer em combate, entregue-a a Davina!
- Não morrerás, mestre Dawein! És bom e justo! Mereces a vida plena e a paz! – grita entre lágrimas o magro e pequeno Humbert. – Tu retornarás, mestre!
Do alto da torre do castelo, Davina observa seu amado partir. Sem olhar para trás, Dawein segue para cumprir o seu destino, construir a sua lenda pessoal. Cavalga firme, mas seus olhos trazem uma tristeza abissal: “Davina, Davina, quando sentirei de novo o sabor de teus beijos?”
Já cavalga há quinze minutos, quando escuta a voz de alguém que o chama:
- Sir Dawein! Sir Daweeeeeeeein! Sir Daweeeeeeeeeeeeeeeeein!
Dawein olha para trás e vê o seu magro, pequeno e fiel servo Humbert montado em um pangaré a toda velocidade, agitando a chave do cinto de castidade em uma das mãos:
- Sir Dawein! Sir Dawein!
Dawein pára:
- O que foi, Humbert? O que aconteceu?
E Humbert, esbaforido:
- A chave, sir Dawein! A chave! O senhor me deu a chave errada…
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